Em comemoração ao cinquentenário do assassinato de Kanafani, publicamos esta tradução para o inglês de sua entrevista à revista Palestinian Affairs (edição 36), em julho de 1974. (Originalmente publicada em árabe na Romman: https://www.rommanmag.com/view/posts/postDetails?id=6495 ). Esta tradução para o inglês foi produzida pela Samidoun Spain (https://samidoun.net/2022/07/ghassan-kanafani-interviewed-in-1972-anti-imperialism-gives-impetus-to-socialism-if-it-does-not-stop-fighting-in-the-middle-of-the-battle).
Tradução para o português Yasser Jamil Fayad.
Entrevista publicada pela primeira vez: Com o mártir Ghassan Kanafani.
A revista Palestinian Affairs obteve o texto integral de uma conversa privada inédita conduzida por um escritor suíço, especialista na obra de Ghassan Kanafani. Realizada poucas semanas antes do assassinato do mártir da resistência palestina, essa entrevista acabou por integrar o estudo acadêmico do escritor sobre a obra literária de Ghassan Kanafani.
Ghassan, você poderia me contar algo sobre sua experiência pessoal?
Acho que minha história reflete uma origem palestina muito tradicional. Saí da Palestina aos onze anos de idade e vinha de uma família de classe média. Meu pai era advogado e eu estudava em uma escola missionária francesa. De repente, essa família de classe média desmoronou e nos tornamos refugiados, e meu pai imediatamente parou de trabalhar por causa de suas profundas raízes de classe. Continuar trabalhando depois de termos saído da Palestina não fazia mais sentido para ele. Isso o teria forçado a abandonar sua classe social em direção a uma classe inferior. Não foi fácil. Quanto a nós, começamos a trabalhar ainda crianças e adolescentes para sustentar a família. Consegui continuar meus estudos por conta própria, trabalhando como professor em uma das escolas primárias da aldeia, o que não exigia qualificações acadêmicas elevadas. Foi um começo lógico, pois me permitiu continuar estudando e concluir o ensino médio nesse meio tempo. Depois disso, me matriculei na Universidade [Universidade de Damasco], no Departamento de Literatura Árabe, por três anos, após os quais fui desligado por motivos políticos. Então, fui para o Kuwait, onde fiquei por seis anos. Lá, comecei a ler e escrever.
Minha carreira política começou em 1952, quando eu tinha quatorze ou quinze anos. Nesse mesmo ano, ou em 1953, conheci o Dr. George Habash por acaso em Damasco. Eu trabalhava como revisor em uma gráfica. Não me lembro quem me apresentou a Al-Hakim, mas meu relacionamento com ele começou naquela época. Imediatamente me juntei às fileiras do Movimento Nacionalista Árabe e assim começou minha vida política. Durante minha estadia no Kuwait, fui politicamente ativo dentro do Movimento Nacionalista Árabe, que hoje é representado por uma minoria significativa no governo kuwaitiano. Em 1960, fui convidado a me mudar para o Líbano para trabalhar no jornal do partido. Em 1967, fui convidado a trabalhar com a Frente Popular para a Libertação da Palestina, que é o braço palestino do Movimento Nacionalista Árabe. Em 1969, comecei a trabalhar no jornal “Al-Hadaf”, onde continuo até hoje.
Você começou a escrever como resultado de seus estudos em literatura árabe?
Não, acho que meu interesse pela literatura árabe começou antes dos meus estudos. Suspeito que este meu interesse tenha sido resultado de um complexo, se bem me lembro. Antes de sairmos da Palestina, eu estudava em uma escola missionária francesa, como mencionei antes. Portanto, eu não dominava o árabe como árabe. Isso me causou muitos problemas. Meus amigos sempre zombavam de mim, porque eu não era bom em árabe. Essa percepção não era clara quando estávamos na Palestina, por causa da minha classe social. Mas quando saímos da Palestina, meus amigos eram de uma classe social diferente e logo perceberam que meu árabe era fraco e que eu recorria a expressões estrangeiras nas minhas conversas, então me concentrei no idioma árabe para lidar com o meu problema. Isso foi provavelmente, em 1954. Acho que quebrei a perna naquele ano em um acidente. Tive que ficar de cama por seis meses. Foi então que comecei a ler árabe seriamente.
Acho que podemos citar muitos exemplos ao longo da história de pessoas que “perderam” sua língua e, portanto, estão tentando recuperá-la. Você acha que este processo contribui para o desenvolvimento político da pessoa?
Não sei. Pode ser. Quanto a mim, pessoalmente, fui politizado de uma forma diferente. Envolvi-me na política desde cedo, porque vivíamos no campo de refugiados. Assim, tive contato direto com os palestinos e seus problemas através daquela atmosfera triste e emocional que vivenciei na infância. Não foi difícil para mim descobrir as raízes políticas do ambiente em que vivia.
Quando comecei a lecionar, enfrentei grandes dificuldades com as crianças que ensinava no campo de refugiados. Sempre me irritava ao ver uma criança dormindo na aula. Então, simplesmente descobri o motivo: essas crianças trabalhavam à noite, vendendo doces, chicletes ou algo do tipo nos cinemas e nas ruas. Naturalmente, chegavam à aula muito cansadas. Essa situação nos leva imediatamente à raiz do problema. Ficou claro para mim que a sonolência da criança não era resultado de desprezo por mim ou ódio à educação, assim como não tinha nada a ver com a minha dignidade como professor, mas era simplesmente um reflexo de um problema político.
Assim, sua experiência docente contribuiu para o desenvolvimento de sua consciência social e política.
Sim, e me lembro de um acontecimento como se fosse hoje. Como você sabe, os professores do ensino fundamental ensinam todas as matérias, incluindo desenho, aritmética, inglês, árabe e outras. Certo dia, eu estava tentando ensinar as crianças a desenhar uma maçã e uma banana, seguindo o currículo aprovado pelo governo sírio, pois eu lecionava lá e, portanto, tinha que seguir o livro. E naquele momento, enquanto eu tentava desenhar essas duas figuras no quadro-negro da melhor maneira possível, senti uma sensação de alienação, de não pertencer; e me lembro bem de que senti, naquele instante, que precisava fazer algo, porque percebi, antes mesmo de olhar para os rostos das crianças sentadas atrás de mim, que elas nunca tinham visto uma maçã ou uma banana. Então, essas coisas eram a última coisa que lhes interessavam. Não havia nenhuma conexão entre elas e essas duas figuras. Na verdade, a relação entre seus sentimentos e esses desenhos era tensa, nada boa. Foi um ponto de virada decisivo, pois me lembro daquele momento com clareza entre todos os acontecimentos da minha vida. Como resultado, apaguei os desenhos do quadro e pedi às crianças que desenhassem o campo. Alguns dias depois, quando o inspetor veio à escola, disse que eu havia me desviado do programa determinado pelo governo, o que provaria que eu era um professor incompetente. Ter que me defender me levou diretamente à causa palestina. Acumular pequenos passos como esses impulsiona as pessoas a tomarem decisões que marcarão suas vidas para sempre.
Comentando sobre esse ponto, acho que quando você se dedica à arte, pelo menos como socialista, você conecta a arte diretamente às esferas social, política e econômica. Você abordou isso ao desenhar uma maçã e uma banana. Mas, quanto aos seus escritos, essas obras estão relacionadas à sua realidade e à situação atual, ou derivam de uma herança [literária]?
Meu primeiro conto foi publicado em 1956 e se chamava “Um Novo Sol”. A história gira em torno de um menino em Gaza. Ao rever todos os contos que escrevi sobre a Palestina até hoje, fica claro para mim que cada um deles está direta ou indiretamente ligado, por um fio tênue ou sólido, às minhas experiências pessoais. No entanto, meu estilo de escrita se desenvolveu plenamente entre 1956 e 1960, ou mais especificamente, em 1962. Inicialmente, eu escrevia sobre a Palestina como um problema em si mesmo; bem como sobre as crianças palestinas, sobre o palestino como ser humano, sobre as esperanças palestinas, sendo elas próprias coisas distintas do nosso mundo independente e autônomo; como fatos palestinos inevitáveis. Depois, ficou claro para mim que eu via na Palestina um símbolo humano integrado. Quando escrevo sobre uma família palestina, estou, na verdade, escrevendo sobre uma experiência humana. Não há incidente no mundo que não esteja representado na tragédia palestina. Quando retrato a miséria dos palestinos, estou, na verdade, vendo os palestinos como um símbolo da miséria em todo o mundo. E pode-se dizer que a Palestina representa o mundo inteiro nas minhas histórias. O crítico [literário] agora pode perceber que minhas histórias não são apenas sobre o palestino [indivíduo] e seus problemas, mas também sobre a condição humana de um homem que sofre com esses problemas. Mas talvez esses problemas estejam mais cristalizados na vida dos palestinos.
Seu desenvolvimento literário acompanhou seu desenvolvimento político?
Sim. Na verdade, não sei qual veio antes do outro. Anteontem, assisti a uma adaptação cinematográfica de um dos meus contos. Eu a escrevi em 1961. Vi o filme com uma nova perspectiva, pois percebi que o diálogo entre os protagonistas, sua linha de pensamento, sua classe social, suas aspirações e suas raízes naquela época expressavam conceitos avançados do meu pensamento político. [Portanto,] posso dizer que minha personalidade como romancista era mais desenvolvida do que minha personalidade como ator político, e não o contrário, e isso se reflete na minha análise e compreensão da sociedade.
Seus textos refletem uma análise da sua sociedade, ou você também incorpora elementos emocionais em suas análises?
Suponho que, no início, minhas histórias se baseavam em uma situação emocional. Mas pode-se dizer que minha escrita começou a refletir a realidade a partir do início dos anos sessenta. Minha observação dessa realidade e minha escrita sobre ela me levaram a uma análise adequada. Minhas histórias em si carecem de análise. No entanto, elas narram à maneira como os protagonistas agem, as decisões que tomam, as razões que os motivam a tomar essas decisões, a possibilidade de concretização dessas decisões, etc. Em meus romances, expresso a realidade, como a entendo, sem análise. Quanto ao que eu quis dizer ao afirmar que minhas histórias eram mais desenvolvidas [do que minhas opiniões políticas], isso se deveu ao meu sincero espanto ao acompanhar o desenvolvimento dos personagens no filme que eu assistia e que não lia há alguns anos. Fiquei surpreso ao ouvir [novamente] o diálogo dos meus personagens sobre seus problemas e poder compará-lo com os artigos políticos que eu havia escrito no mesmo período, percebendo que os protagonistas da história analisavam as coisas de uma maneira mais profunda e correta do que meus artigos políticos.
Você mencionou que começou seu trabalho político juntando-se ao Movimento Nacionalista Árabe no dia em que conheceu Habash, em 1953. Quando você adotou os princípios socialistas [então]? O Movimento Nacionalista Árabe não era um movimento socialista no início.
Não, não era. O Movimento Nacionalista Árabe era [direcionado] contra o colonialismo, o imperialismo e os movimentos reacionários. Não tinha uma linha ideológica definida naquele momento. Contudo, esse movimento adotou uma linha socialista própria ao longo dos anos de sua existência. O anti-imperialismo impulsiona o socialismo se não cessar a luta no meio do conflito e se não chegar a um acordo com o imperialismo. Se assim fosse, aquele movimento não poderia se tornar um movimento socialista. Mas se a luta continuar, [é natural] que o movimento
[anti-imperialista]
se desenvolva em uma posição socialista. Os nacionalistas árabes perceberam isso no final da década de 1950. Perceberam que não poderiam vencer a guerra contra o imperialismo a menos que contassem com certas classes
[sociais]
: aquelas classes que lutam contra o imperialismo não apenas por sua dignidade, mas também por seu sustento. E foi esse [caminho] que os levou diretamente ao socialismo.
Mas em nossa sociedade e em nosso movimento [o Movimento Nacionalista Árabe] éramos muito sensíveis aos princípios marxistas-leninistas, e essa posição não era resultado de nossa hostilidade ao socialismo, mas sim dos erros cometidos pelos partidos comunistas no mundo árabe. Por isso, foi muito difícil para o Movimento Nacionalista Árabe adotar o marxismo-leninismo antes de 1964. Mas em 1967, especificamente em julho, a Frente Popular abraçou os princípios do marxismo-leninismo e foi, portanto, a única frente dentro do Movimento Nacionalista Árabe a dar esse passo. O Movimento Nacionalista Árabe mudou seu nome para Partido Socialista Trabalhista. Quanto à sua ala palestina, passou a ser chamada de “Frente Popular”. Claro, isso é uma simplificação do problema. Nós havíamos nos desenvolvido dentro do Movimento Nacionalista Árabe. Havia uma luta constante dentro do movimento entre a chamada direita e a esquerda. Em cada rodada, a esquerda saía vitoriosa porque nossa posição sobre o anti-imperialismo e as atitudes reacionárias era melhor [do que a posição da direita]. Isso resultou na adoção do marxismo-leninismo.
Quanto a mim, não me lembro agora se minha posição sobre os conflitos que surgiram dentro da frente pendia para a direita ou para a esquerda, porque a fronteira entre direita e esquerda não era tão definida naquela época como é agora, como ocorre, por exemplo, nos partidos políticos mais desenvolvidos. Mas posso dizer que o Movimento Nacionalista Árabe incluía alguns jovens, inclusive eu, que zombavam da sensibilidade dos mais velhos ao comunismo. Claro, não éramos comunistas naquela época e não éramos a favor do comunismo. No entanto, nossa sensibilidade ao comunismo era menor do que a dos mais velhos. Consequentemente, a nova geração desempenhou um papel fundamental na transformação do Movimento Nacionalista Árabe em um movimento marxista-leninista. O principal fator para isso foi o fato de que a maioria dos membros do Movimento Nacionalista Árabe pertencia à classe pobre. Quanto aos membros pertencentes à pequena burguesia ou à grande burguesia, seu número era limitado. Eles também não permaneceram no movimento, abandonando-o em até dois anos após ingressarem. Novos membros [dessas classes] também se juntaram, e depois saíram por sua vez [pouco tempo depois]. Quanto às classes pobres, elas permaneceram e logo formaram uma força preponderante dentro do Movimento Nacionalista Árabe.
Quando você começou a estudar marxismo-leninismo? Você se lembra?
Não creio que minha experiência nesse sentido seja tradicional. Primeiro, eu era e ainda sou admirador de escritores soviéticos. No entanto, minha admiração por eles era absoluta na época, o que me ajudou a romper o gelo entre mim e o marxismo. Dessa forma, fui exposto ao marxismo precocemente por meio de minhas leituras e da minha admiração por escritores soviéticos. Segundo, o marido da minha irmã era um proeminente líder comunista. Minha irmã se casou em 1952 e o marido dela influenciou minha vida desde cedo. Além disso, quando fui para o Kuwait, fiquei hospedado na casa de outros seis jovens e, algumas semanas depois da minha chegada, descobri que eles estavam formando uma célula comunista. Então, comecei a ler sobre marxismo muito cedo. Não sei o quanto absorvi naquela época e naquele momento, sob a influência das emoções do Movimento Nacionalista Árabe. Não consigo mensurar meu entendimento ou compreensão do material que lia. Contudo, o conteúdo não me era estranho.
Podem ter sido essas influências iniciais que impulsionaram suas primeiras histórias [em relação às suas ideias políticas da época]. Acho que suas leituras de literatura soviética e seus contatos com marxistas se refletiram em sua escrita.
Não creio que esses fatores sejam preponderantes. Penso que a maior influência na minha escrita se deve à própria realidade: o que vejo, as experiências dos meus amigos, parentes, irmãos e irmãs, e alunos, a minha vivência nos campos de refugiados com pobreza e miséria. Esses são os fatores que me afetaram. Talvez a minha admiração pela literatura soviética se deva ao fato de ela expressar, analisar, abordar e descrever o que eu estava de fato presenciando. Minha admiração continua, é claro. Contudo, não sei se a literatura soviética influenciou a minha escrita. Não sei a dimensão desse efeito. Prefiro dizer que o principal efeito não se deve a ela, mas à própria realidade. Todos os personagens dos meus romances foram inspirados na realidade, que me deu força; e não pela imaginação. Também não escolhi meus heróis por razões artísticas [literárias]. Todos eles eram do campo de refugiados, não de fora. Quanto aos personagens artísticos das minhas primeiras histórias, eles eram sempre maus. E isso se deve à [minha experiência com] meus subordinados no trabalho. Portanto, a própria vida teve a maior influência [na minha escrita].
Você pertencia à classe média, mas ingressou no proletariado ainda criança.
Sim, claro, minha origem está ligada à classe média, pois meu pai pertencia à classe média antes de irmos para a Síria, como refugiados. E o apego da minha família às suas raízes
[de classe]
estava muito distante da realidade, que não tinha nenhuma conexão com essas raízes. E nós, as crianças, tivemos que pagar o preço por essa contradição [entre o passado e a realidade]. Portanto, meu relacionamento [com os membros da minha classe] tornou-se agressivo em vez de amigável. Não vou fingir que me juntei ao proletariado. Eu não era um proletário de verdade, mas me juntei ao que chamamos em nossa língua de “lumpen proletariado”, cujos membros não fazem parte do aparato produtivo, eles [vivem] à margem do proletariado. Mas isso me ajudou, claro, a entender a ideologia do proletariado, mas não posso dizer que eu fazia parte do proletariado naquela época.
No entanto, desde o início você foi capaz de enxergar a realidade sob a perspectiva dos oprimidos.
Sim, pode-se dizer isso. Meu conceito, no entanto, não foi cristalizado de uma forma científica e analítica, mas sim [simplesmente uma expressão de] um estado emocional.
Vamos voltar agora a 1967, quando nasceu a “Frente Popular para a Libertação da Palestina”. Quais eram as crenças dessa organização e quais foram os motivos para a sua criação?
Como você sabe, a Frente Popular não era uma organização nova. É essencialmente o braço palestino do Movimento Nacionalista Árabe, do qual eu era membro. Ela se desenvolveu inicialmente por meio de membros do movimento, em 1967. Criamos a “Frente Popular” porque o mundo árabe assumiu o protagonismo [no espaço político]. O braço palestino do Movimento Nacionalista Árabe também cresceu bastante e houve mudanças em sua liderança e na mentalidade de seus membros. Então, nos juntamos à Frente Popular. É claro que eu, pessoalmente, me juntei à Frente porque acredito que ela, como partido, representa um estágio relativamente avançado em comparação com as outras organizações [políticas] na área da luta palestina. Acredito que posso realizar minhas visões futuras por meio desta organização. Esta é a principal razão pela qual me juntei à Frente Popular.
Como você vê seu papel como editor-chefe do jornal “Al-Hadaf” nesta organização, e pode me falar um pouco sobre seu método de mobilização em massa?
Sou membro desta organização, que na verdade constitui um partido com seu próprio sistema interno e estratégia política. Possui também uma estratégia organizacional e de liderança baseada em princípios democráticos fundamentais. Portanto, quando a liderança me designa para esta posição específica, tenho que cumprir um programa específico. Sou membro do Comitê Central de Informação da Frente Popular. O jornal Al Hadaf faz parte da estrutura midiática da Frente, segundo nossa compreensão de mídia, que não se limita à propaganda, mas vai além… educação, etc. Não sou responsável pelo Al Hadaf . Essa tarefa é atribuída ao Comitê Central de Mídia, e eu represento esse comitê no jornal. Na prática, lido com o aspecto organizacional desta instituição ( Al Hadaf ), mas temos um comitê que lê e avalia o Al Hadaf , escreve artigos e discute editoriais. Dentro da Frente, existem dez instituições e departamentos semelhantes. Nossa instituição pode ser menor que as demais. No entanto, existem círculos dentro da Frente Popular que praticam atividades sociais e políticas dentro dos campos. Também temos aqueles que trabalham na luta armada e em outras áreas. Cada um de nós é parte integrante do outro. Naturalmente, aqueles que trabalham na área organizacional, ou seja, na organização de conferências, programas educativos, reuniões e contatos com as massas, utilizam nosso jornal para expressar o ponto de vista da Frente Popular. Eles também nos consultam a respeito das massas. Portanto, como resultado dessas relações dinâmicas entre eles, todos os setores realizam juntos uma campanha de mobilização de massas.
Você poderia me dizer algo sobre o próprio jornal?
Trabalhar [no jornal] é muito estressante. É assim que me sinto agora que terminei a edição desta semana. Estou exausto e é horrível para alguém trabalhar em um jornal como este. Quando você termina a última frase de uma edição, de repente se depara com vinte páginas em branco para preencher. Além disso, cada linha, título e imagem no jornal é discutido pelos [membros] da Frente, e o menor erro é monitorado. O jornal fica sujeito a críticas e trabalhar nele não é como trabalhar em um jornal comum. Em um jornal comum, você só precisa fazer o seu trabalho, mas no nosso jornal os mínimos detalhes são discutidos pelos
[diferentes círculos dentro da Frente]
, que os leem atentamente. Portanto, é muito difícil para uma pessoa fazer um trabalho integrado diante desse grande tribunal, composto por [outros] membros da Frente. Então, a pessoa sente que precisa trabalhar mais.
Além disso, vivemos em um país em desenvolvimento. No movimento de resistência e em uma organização como a nossa, cada departamento tenta atrair “pessoas” com talentos e competências, por menores que sejam, para realizar o trabalho, já que a conclusão do trabalho e a implementação dos programas atribuídos são essenciais para o indivíduo. Nós, do Al Hadaf, temos poucos funcionários e, quando pedimos à Frente para nos designar mais trabalhadores, a resposta que ouvimos é: “Deem-nos dois ou três dos seus funcionários para ensinar as comunidades de base, porque trabalhar na base é mais importante do que trabalhar no jornal”. Então, permanecemos em silêncio, com medo de que nos tirem funcionários. É difícil para os outros acreditarem que apenas três pessoas editam o Al Hadaf. Essa situação persiste há três anos. Às vezes, recebemos ajuda [extra] de uma quarta pessoa, mas essa pessoa nos deixa e contratamos outra, e a história se repete.
Então você tem que trabalhar dia e noite.
Sim. Não creio que nenhum dos colegas trabalhe menos de 13 ou 14 horas por dia. E isso sem parar, sem férias e sem piedade das críticas. Pessoas da nossa organização, do governo e de outros jornais já nos criticaram.
Você considera o Al-Hadaf um jornal progressista, e acha que ele se apresenta como um jornal progressista sob uma perspectiva política teórica?
Sim, e eu também acho que isso causa um problema. Não estou tentando elogiar o jornal, mas é muito difícil expressar ideias políticas e teóricas profundas de forma simples. Poucas pessoas têm essa capacidade. Na Frente Popular, temos duas pessoas que conseguem expressar pensamentos profundos de uma forma fácil, que qualquer leitor consegue entender. Uma delas é George Habash. A outra é um dos líderes militares que escreveu artigos maravilhosos. Quanto ao resto, é difícil, especialmente se não tem experiência. Sempre recebemos críticas da base, que diz ser muito difícil entender o que nosso jornal escreve e que precisamos simplificar as coisas e escrever de forma mais acessível.
Por isso, a preparação do jornal demanda muito tempo, pois preciso revisá-lo e simplificar alguns pontos abordados após a redação. Acredito que a criação de outros jornais internos na Frente facilitaria nossa tarefa e a continuidade do nosso trabalho nessa área. O jornal interno pode expressar ideias simples e descomplicadas. Já para um jornal público central como o nosso, é difícil imitar os jornais internos, pois precisamos adotar uma postura mais séria. Para isso, estamos tentando [agora] limitar a quantidade de artigos que tratam de ideias políticas complexas, de modo que ocupem poucas páginas e se concentrem em campanhas políticas diretas.
Vocês publicam obras literárias, como poesia e outros trabalhos, em seu jornal?
Dedicamos duas páginas à literatura, crítica de cinema, teatro, arte, pintura e muito mais. Creio que os jornalistas mencionados anteriormente são os mais populares, pois muitos membros da Frente compreendem a linha de pensamento de esquerda através dessas páginas.
Você já publicou contos?
Não tenho tido tempo para escrever desde que comecei a trabalhar no Al-Hadaf. Aliás, só publiquei [recentemente] duas histórias sobre uma senhora idosa sobre quem sempre escrevo [Umm Saad]. Não tenho tempo para a escrita literária e isso é muito frustrante.
Você gostaria de escrever mais?
Normalmente, quando saio do trabalho no escritório e chego em casa, me sinto tão cansado que não consigo escrever. Então, em vez disso, leio. E, claro, preciso ler duas horas por dia, porque não consigo ficar sem. Mas depois que termino de ler, me sinto melhor indo dormir ou assistindo a um filme bobo [para mim], porque não consigo escrever [depois de terminar meu trabalho].
Você acha que os recentes desenvolvimentos dentro da Frente refletem o fato de ela ter se tornado um coletivo onde abundam debates, em vez de um coletivo que se envolve em atividades militares?
Não, eu discordo. Na verdade, na Frente, sempre insistimos em uma linha estratégica específica cujo lema é que todo político também é um combatente e todo combatente é um político. Quanto ao fenômeno que você está testemunhando agora, ele não se limita a nós [na Frente]. Esse fenômeno se deve ao fato de que o movimento de resistência palestino está em declínio devido a circunstâncias objetivas, que tentam nos destruir neste período. Vivemos nesse estado de declínio desde setembro de 1970, o que nos impede de intensificar nossas atividades militares. Mas isso não significa que vamos cessar as ações militares. Isso vale para o movimento de resistência em geral. Quanto à Frente Popular em particular, nossas operações militares em Gaza, na Cisjordânia e em Israel se intensificaram nos últimos dois anos. Mas Israel tenta ocultar essas operações. Mesmo assim, permanecemos ativos. Também temos bases no sul do Líbano e estamos nos preparando para uma guerra popular secreta contra os reacionários na Jordânia. No entanto, o estado de decadência em que vivemos e a atmosfera repressiva generalizada imposta pelos governos árabes afetam a opinião pública, levando as pessoas a pensarem que cessamos as atividades militares. Mas essa conclusão é incorreta.
Na sua opinião, como o estado de decadência afetou o indivíduo palestino, sem se referir a uma linha política específica?
Os movimentos políticos são como os seres humanos. Quando uma pessoa é saudável, famosa e rica, os amigos se reúnem ao seu redor e todos a apoiam. Mas quando ela envelhece, adoece e perde seu dinheiro, os amigos ao seu redor se dispersam. Agora nós
[como movimento de resistência]
estamos passando por essa fase, a fase da apatia, por assim dizer. O indivíduo palestino sente que os sonhos que construiu nos últimos anos foram minados. Este é um sentimento doloroso, sabe, e acho que muitos camaradas compartilham da minha opinião: que esta fase é temporária. Quando o indivíduo palestino descobrir que estamos lutando contra um grande inimigo que não podemos derrotar em poucos anos, que nossa guerra é de longo prazo e que seremos derrotados repetidamente, então a lealdade do indivíduo palestino à revolução palestina não será tão frágil e emocional como é agora. Acredito que podemos mobilizar as pessoas novamente quando conquistarmos nossa primeira nova vitória. Estou confiante de que esta vitória virá. Não temos medo deste “período de inatividade”, como gosto de chamá-lo. Isso é normal, visto que os líderes árabes e os porta-vozes da mídia árabe fizeram muitas promessas às massas, alardeando uma vitória facilmente alcançável. Agora, muitos árabes descobriram que essas promessas eram enganosas. Portanto, não acredito que esse fenômeno [ou seja, a apatia do indivíduo palestino] seja inerente e contínuo. Sabemos que superaremos essa fase no futuro e que a lealdade das massas à revolução será mais forte do que antes.
Você ou a liderança da Frente foram otimistas demais em 1967, 1968 ou 1969? Fizeram promessas demais? Enxergaram esse conflito como uma luta fácil?
Não. Na verdade, a Frente Popular alertava as massas, por meio de seus documentos escritos, de que o problema não seria fácil. Também as advertia de que seriam derrotadas repetidamente e enfrentariam banhos de sangue, muitas tragédias e massacres. Mencionamos isso muitas vezes, mas, em geral, a liderança da revolução palestina prometia às massas uma vitória fácil. Quanto ao otimismo, estamos muito otimistas e posso dizer que nossa situação atual, apesar de estarmos no ponto mais baixo de nossa difícil luta, é melhor do que em 1967, 1968 ou 1969 – do ponto de vista científico e como movimento de resistência, através do qual avaliamos nosso movimento histórico, e não por meio de aparências superficiais.
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