Palestinos no Líbano e o “Ghassan Kanafani Político”: Uma Entrevista com Marwan Abd el-‘Al da FPLP.

Palestinos no Líbano e o “Ghassan Kanafani Político”: Uma Entrevista com Marwan Abd el-‘Al da FPLP.

Tradução: Yasser Jamil Fayad.

Durante o mês de comemoração do quinquagésimo primeiro aniversário do assassinato de Ghassan Kanafani pelos sionistas em Beirute, Louis Brehony encontrou-se com Marwan Abd el-‘Al, membro proeminente da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), no campo de refugiados de Mar Elias, em junho de 2023. Artista, romancista e ativista cultural, além de membro do conselho político da FPLP, Abd el-‘Al havia retornado recentemente de uma participação em eventos na Síria, onde palestrou sobre o legado de Kanafani, com base em uma análise do al-Kanafaniyya (‘Kanafanismo’) que desenvolveu nos últimos anos. Esta entrevista em Beirute foi dividida em duas partes tematicamente distintas, sendo a primeira – a situação histórica e contemporânea enfrentada pelos palestinos no Líbano. Aqui, apresentamos a primeira e a segunda partes combinadas. A primeira parte compreende as quatro primeiras perguntas. A segunda parte desta entrevista, que compreende as últimas perguntas, centrou-se na presença duradoura de Kanafani na cultura da resistência palestina.

Você poderia descrever a origem da FPLP e o contexto dos primeiros anos da organização no Líbano?

A Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) nasceu como sucessora do Movimento Nacionalista Árabe (MNA), que surgiu entre jovens intelectuais da Universidade Americana de Beirute no início da década de 1950. O MNA absorveu a forte influência das ideias pan-arabistas, mas, devido às experiências diretas da derrota na Nakba em 1948, percebeu a necessidade de construir uma resposta à presença do Estado de Israel e de combater os interesses dos EUA na região. Porém, após 1967, surgiram novas questões: o MNA havia sido uma resposta a 1948; a FPLP foi a resposta a 1967.

A tendência nacionalista havia sido a porta de entrada para o debate sobre como libertar a nação árabe, pelo qual o movimento arabista pagou um alto preço. Estávamos agora lidando com um período de transformação, organizacional e política, do nacionalismo para o marxismo-leninismo. É claro que essa não é uma questão fácil, e a Frente estava sujeita a divisões e novas tendências. Mas o que emergiu durante esse período foi uma estratégia sobre a natureza do confronto com o sionismo, o imperialismo e a reação árabe; a identificação dos inimigos e amigos do povo palestino; e a ideia de que não havia outro caminho para libertar a Palestina senão o da luta revolucionária. Tudo isso significou que a FPLP passou a desempenhar um papel essencial durante esse período no processo pelo qual a nação palestina confrontou o sionismo, aproveitando todas as oportunidades para intensificar a resistência.

Após 1967, o foco desse confronto passou a ser a Jordânia, que representava a rota mais próxima da Palestina e o local da maior concentração [de refugiados]. O movimento sofreu com a repressão do regime jordaniano, que o atacou com o objetivo de liquidar a revolução palestina. Mas havia outras frentes também, que moldaram a história da FPLP, incluindo os movimentos em Gaza liderados por “Guevara” e outros {refere-se a Muhammad al-Aswad que ficou conhecido como o “Guevara de Gaza”, de onde liderou uma célula de resistência armada até ser assassinado pelas forças judaico-sionistas, em março de 1973}, com alguma influência do fomento da resistência por Nasseristas… até o momento em que se tornou necessário mudar o foco para o Líbano [no final de 1970]. A FPLP passou a desempenhar um papel de liderança… Beirute tornou-se o centro de todas as tendências e movimentos políticos e a capital da revolução.

Quais foram as consequências específicas do período de guerra no Líbano para os palestinos? Você também poderia descrever o período posterior à guerra e a persistente falta de direitos dos palestinos no país?

Os problemas do próprio Líbano eram, naturalmente, complexos. Guerras foram travadas contra a revolução palestina no Líbano, bem como contra o movimento nacionalista libanês progressista. E no centro da estrutura sectária do Líbano e da violenta oposição aos palestinos, socialistas, comunistas, nacionalistas e progressistas, estavam forças aliadas ao sionismo… A intervenção sionista no Líbano infligiu uma ferida extremamente dolorosa ao corpo palestino. Eu mesmo, por exemplo, comecei minha adolescência no auge do que era chamado de guerra civil, pensando em como defender minha própria existência como ser humano. Durante essa guerra israelense, campos de refugiados inteiros foram arrasados ​​[entre 1974 e 1976], como Tel al-Za’tar, Jisr al-Basha e al-Nabatiyyeh. Nessa guerra, não havia família palestina sem um membro martirizado, ferido ou desaparecido.

Atualmente, o Estado libanês afirma agora que existem 117.000 palestinos: nós dizemos que pode haver até 250.000, já que muitos não estão registrados. Isso é resultado da negligência e das restrições impostas por essa residência de longa duração e evidencia a falta de direitos humanos e civis básicos para os palestinos, no Líbano. Um futuro de extrema ansiedade é imposto a todos os jovens que desejam trabalhar. Se conseguirem dinheiro, os palestinos podem ir estudar o que quiserem em qualquer universidade do país. Mas não lhes é permitido trabalhar aqui. Esta é uma questão sobre a qual não conseguimos pressionar os políticos e partidos – vocês sabem como o Líbano está dividido por linhas sectárias, embora alguns deles adotem posições pró-Palestina. Esta é uma das questões que a Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) enfrenta no Líbano.

No contexto libanês atual, quais são as prioridades e os objetivos da FPLP? É uma enorme contradição, sem dúvida, que o rosto de Mahmoud Abbas apareça aqui, nos portões do campo. Qual o papel da Autoridade Palestina? E qual a influência da FPLP nos campos de refugiados em geral por todo o Líbano?

As prioridades da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) são, em primeiro lugar, preservar a presença palestina no Líbano em nível humano, que ainda ocupa uma posição importante no conflito. Israel adoraria se livrar dos palestinos no Líbano e, com eles, da ameaça à sua existência. Os campos de refugiados são uma lembrança viva do que Israel criou com a Nakba. A segunda questão é a dignidade do povo. A Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA), a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e o Estado libanês são todos responsáveis. Frequentemente, constatamos que eles se esquivam desta responsabilidade: o Estado sequer consegue alimentar seu próprio povo e diz à UNRWA que a questão do saneamento básico nos campos é problema seu. A FPLP considera seu dever unificar o povo palestino, juntamente com aqueles que lutam na Cisjordânia, por exemplo. É claro que existem divisões sociais e todo tipo de contradições, mas isso faz parte da nossa responsabilidade. Nossos jovens pagam somas exorbitantes para migrar ou se afogam em barcos, se tornam viciados em drogas ou veem o sectarismo religioso como a solução. Na luta pelos direitos humanos, o direito de retorno continua sendo a linha vermelha, pelo menos para nós.

De modo geral, as pessoas no Líbano vivem em situação de instabilidade e têm preocupações reais quanto ao futuro, aos filhos, etc. Sua principal preocupação é como garantir segurança em suas condições de vida. Politicamente, há uma competição para ver quem detém o maior poder. Os islamitas operam uma economia baseada no zakat {refere-se ao pilar islâmico de doação/caridade}, por meio de uma caixa de doações que trazem mensalmente; em vez de oferecer soluções, fábricas ou trabalho, criam dependência, o que configura uma relação de poder. A Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) se destaca nesse contexto, pois assume uma responsabilidade clara e notória para com o povo palestino, com caráter, identidade e posicionamento firmes diante do conflito, sem qualquer possibilidade de se desviar de suas convicções.

A organização enfrentou todas as guerras e sobreviveu. Não recebe financiamento externo. No presente, estamos marchando contra a maré, mas, historicamente, no Líbano, a Frente foi uma das primeiras organizações palestinas e conquistou sua reputação. Amanhã haverá uma discussão entre as partes, convocada pelo Hezbollah, sobre como vemos a batalha por Jenin. De apenas seis organizações presentes,  uma é a FPLP. Nos últimos dez anos, houve uma campanha para reparar a destruição do campo de refugiados de Nahr al-Bared {refere-se a destruição decorrente do conflito entre o Exército libanês e o grupo fundamentalista Fatah al-Islam, em 2007}, ainda abriga mais de 35.000 pessoas. A OLP e o Hamas estão ausentes e não há apoio do Estado libanês, mas a FPLP liderou a reconstrução. Assumimos a responsabilidade, não ficando em hotéis ou vivendo em bairros confortáveis, mas estando ao lado do povo durante esses tempos difíceis.

Poderia descrever a posição assumida pela FPLP em relação ao movimento revolucionário que surgiu no Líbano em outubro de 2019, particularmente à luz da crise econômica enfrentada pela classe trabalhadora?

O Líbano sofre com corrupção, negligência e deficiências no âmbito governamental que não surgiram apenas nos últimos anos, nem ocorreram devido à presença de armamento do Hezbollah ou à luta palestina e sua relação com Israel. Não, esses problemas têm origem na fundação do Líbano como um Estado sectário. [O marxista libanês] Mahdi Amel escreveu que o sectarismo é, na verdade, um reflexo de classe: existe uma classe compradora que está sempre buscando ampliar seus interesses por meio de relações com o Ocidente. Ou transformar a luta de classes em um conflito sectário. Foi o que aconteceu na guerra civil e em outras anteriores.

Muitos de nós acreditamos que, se a Síria caísse [após 2011], o Líbano cairia em seguida. Essa era a análise. Mas a Síria não caiu – e o papel dos libaneses na Síria foi um dos motivos, o fato de a resistência ter aberto uma frente na Síria. Mas, independentemente do que acontecesse na Síria, o Líbano caminhava para uma extrema pressão econômica. É uma economia rentista, como ficou claro desde que a família Hariri entrou em cena, e os bancos buscam obter o máximo lucro possível com este país. Isso chegou a tal ponto que a população começou a afundar…

O Líbano entrou em colapso econômico, e a população tem todo o direito de protestar contra isso. Em 2017, o movimento se uniu contra o Estado e contra o sistema sectário. Os manifestantes diziam: “Somos libaneses”. Muitos acreditavam que o movimento realmente transcendia as visões sobre identidade religiosa. Alguns comunistas libaneses começaram a descrever 2017, como um novo outubro de 1917. Mas outra força entrou em cena, aproveitando-se desse tipo de movimento e erguendo uma bandeira totalmente diferente. A Falange aderiu, usando alguns dos mesmos slogans, mas acrescentando os seus próprios: que a crise no país estava relacionada ao apoio do Hezbollah. Essa visão era essencialmente uma expressão libanesa do ponto de vista dos EUA. Depois vieram as eleições e a situação se acalmou. Muitos que viam o movimento como revolucionário já não compartilham desta visão. Houve protestos contra a embaixada dos EUA, e eles estavam certos.

O Hezbollah e o Amal temiam essa revolução e se opuseram a ela. Em primeiro lugar, porque o movimento alegava representar todo o povo. Isso era falso, é claro: generalidade significa, na verdade, opacidade. Se você quer dizer “todos contra a corrupção”, e assim por diante, sem distinção, isso é, na realidade, uma limitação. É falso – e essa é uma das mentiras propagadas por [sionista francês] Bernard-Henri Lévy – que seja possível ter uma “revolução sem líderes”, sem uma vanguarda para liderar a expressão dessa indignação, a revolução “não tem direção”. Se falarmos de uma frente nacional, por exemplo, com quem você vai formar essa aliança?

Se Israel ou os EUA invadirem o Líbano, lutaremos ao lado dos libaneses. Somos contra qualquer intervenção externa no Líbano. Mas, em relação aos problemas internos do Líbano, mantemos nossa independência. As pessoas no Líbano que apoiam a Palestina devem nos permitir viver no país em igualdade de condições com qualquer outro povo: essa é a condição que impomos a todos.

Vamos falar sobre Ghassan. Uma das principais razões para publicarmos o livro de Escritos Políticos Selecionados é a sua presença constante entre os palestinos na Palestina ocupada, na Europa, na América do Norte e em outros lugares. Parece haver um interesse renovado em sua obra entre uma nova geração, evidenciado pela visibilidade de sua imagem em mobilizações de esquerda na Palestina e pelo compartilhamento de citações, entrevistas e novas traduções internacionalmente. Estamos certos em observar o aumento da popularidade de Ghassan nos últimos anos? E vocês também percebem isso no Líbano?

Claro! A cada ano, nossas homenagens a Ghassan crescem, assim como sua importância e relevância, o que indica que sua obra pertence ao presente, e não ao passado. Isso porque, quando nos sentimos desgastados pelas condições de crise crescente que enfrentamos, nos perguntamos por que Ghassan foi alvo de um assassinato. E não apenas Ghassan, mas por que Ghassan especificamente? Só podemos concluir que temiam suas ideias. Mataram Ghassan por causa do que temiam que ele pudesse se tornar: seu objetivo, portanto, é matar o futuro. No que diz respeito à luta de libertação nacional palestina, aos movimentos árabes e à luta internacional, em todas as suas relações, a posição de Ghassan assemelhava-se à de Franz Fanon, na revolução argelina. Para a revolução palestina, Ghassan era Franz Fanon. Ele era jovem e, se a revolução tivesse sido vitoriosa em sua época, sua imagem estaria por toda parte, como a de Che Guevara. É, portanto, nosso dever compreender o assassinato de Ghassan e suas ideias.

Fiz um discurso sobre Ghassan em Damasco durante as Jornadas Culturais Ghassan Kanafani [em julho de 2023]. Eu não conhecia Ghassan pessoalmente – eu tinha apenas 12 anos quando ele foi assassinado – mas passei a conhecê-lo depois de seu assassinato, quando me juntei à multidão em seu funeral e, vendo as pessoas chorando, percebi que haviam matado um pensador importante. Ao ingressar na FPLP ainda jovem [em meados da década de 1970], todos nós ficamos sabendo quem era Ghassan e o encontramos em todos os lugares: em todos os livros que líamos na organização, em nossos métodos de organização, nos acampamentos, fomos educados na escola de Ghassan e aprendemos que todas as suas ideias eram o pensamento do movimento de libertação nacional. Suas ideias não eram espirituais, mas científicas. Ele não analisava os fenômenos dentro dos limites dos parâmetros acadêmicos, mas usava métodos materialistas e marxistas e os traduzia para nós em árabe.

A compreensão de Ghassan gerou uma teoria do confronto [com o sionismo] e seus motivos intrínsecos, baseada na realidade material. Quando escreveu sobre a revolução de 1936, por exemplo – que permanece, para muitos, o texto seminal – ele fundamentou sua análise no marxismo. Seus muitos textos foram escritos sob o lema orientador: “com nosso sangue, escrevemos pela Palestina”. Ele personificou a causa palestina e entregou seu corpo à luta. Tudo isso engloba cada momento da presença de Ghassan: ele foi ensaísta, poeta, jornalista, artista de cartazes, editor, designer do jornal al-Hadaf , escritor de contos e de colunas jornalísticas. Sua resistência intelectual foi. É aqui que localizamos a influência de Ghassan.

Na Europa, ouvimos frequentemente que Ghassan era apenas um escritor de contos, dissociado de seu trabalho político e de sua contribuição escrita ao marxismo palestino – algo que queremos mudar. No entanto, no Líbano, encontramos uma visão oposta, onde há uma ênfase em sua política a ponto de alguns se oporem a essa ênfase. Queremos respeitar o equilíbrio, é claro, mas há claramente muito trabalho a ser feito: muitos desconhecem a análise marxista de Ghassan após 1967, a influência da China, o apelo por “hanois árabes” libertados e suas contribuições sobre outras questões. Concorda que esse “trabalho político” internacionalmente negligenciado (é claro que sua obra romanesca também é política) representa uma parte importante da produção de Ghassan? Estamos certos em focar nessa área?

Nossa visão é semelhante à sua. Eu também sou uma figura cultural – escrevi dez romances, pinto e me inspiro muito em Ghassan. Romances como “Tudo o Que Resta a Você” e “O Cego e o Surdo” são muito interessantes em termos de habilidade romanesca e de como Ghassan a empregou, as metáforas que utilizou e assim por diante. Há três anos, fiz um discurso sobre Ghassan aqui [em Beirute], intitulado “O Ghassan Político”. Por que esse título? Muitos artigos em jornais e revistas, inclusive israelenses, publicaram volumes de textos discutindo Ghassan Kanafani de pontos de vista reducionistas, desvinculando-o de sua filiação política e conectando-o apenas à literatura. Mas que literatura? Apenas literatura de entretenimento e não literatura de engajamento.

Um segundo ponto é que houve projetos televisivos em canais do Catar e, quando líderes da FPLP (Frente Popular para a Libertação da Palestina) vieram discursar, os produtores diziam: “por favor, não queremos uma discussão política sobre Ghassan”. Isso gera um discurso confuso. Em outro extremo, alguns artigos de jornal afirmam que Ghassan Kanafani foi morto por seu papel na FPLP, e não por sua literatura. Nessa visão, Israel o matou porque o considerava um terrorista. [O escritor israelense] Dan Rubenstein publicou um livro, “Por que você não bateu nas laterais do tanque? “. É claro que, aqui, Ghassan é reconhecido como um “escritor excepcional” do exílio. No entanto, na visão de Rubenstein, Ghassan foi morto porque era um terrorista – isso está no livro. Então, eles tentam isolar Ghassan ou expulsá-lo de seu lar [político].

Há muitas ONGs que tratam Ghassan como se ele fosse um escritor serialista, definido pela literatura e pelas histórias que escreveu, [vistas como contendo] o segredo de seu poder e longevidade… Ele criou um novo modelo – e essa foi a base da discussão na comemoração [de 2020], em Beirute, na presença de Anni [Kanafani]. Nós [os colaboradores da FPLP] afirmamos claramente que existem muitos modelos intelectuais, palestinos ou árabes, que contêm compromisso e apoio à causa palestina. Edward Said, por exemplo, levantou a questão da causa palestina. Said estava ligado à causa e à sua política, porém não podia ser considerado ligado a nós, dada a sua distância da organização. Said levantou questões de identidade e outras que eram importantes. Ele estava presente aqui [em Beirute] e envolvido em associações que tinham relações com a política e a cultura, o que muitas vezes era útil.

Mas Ghassan partiu de uma metodologia diferente. Sua abordagem situava-se entre a arte da caneta e a arte do rifle. Essa é a ideia da cultura de resistência e da literatura de resistência. A ideia de que a cultura serve à resistência, e não a cultura pela cultura. Essa é a perspectiva que muitos se recusam a reconhecer ou a priorizar. Em vez disso, Ghassan é afastado do âmbito político. Mas sua literatura era tanto um reflexo das experiências que ele vivenciou quanto um meio de representar seu povo. É importante ressaltar que foi ele quem afirmou que a literatura engajada – seu primeiro meio de expressão – também conteria beleza e honestidade, expressando a vida de seu povo, a sociedade e as condições que enfrentavam. Esse era o dom de Ghassan, representando um compromisso consciente de classe. Quando escreveu sobre Umm Sa’ad, por exemplo, disse “nós somos os oprimidos” e identificou seu povo, os refugiados, como sendo o mais coletivamente subjugado, ou a classe de pessoas mais oprimida. As pessoas viram verdade em suas palavras sobre o povo palestino e uma medida de seu compromisso.

Sabemos também que Ghassan foi um líder – uma voz importante dentro da FPLP. Uma voz da cultura política. Há muitos exemplos dessa liderança no importante livro de Adnan Badr Hilou, “O Aeroporto da Revolução à Sombra de Ghassan Kanafani”. Não foram as Tarefas da Nova Etapa [março de 1972] que confirmaram a posição de Ghassan como marxista. As Tarefas da Nova Etapa foram elaboradas após a saída da Frente da Jordânia, quando uma conferência nacional da FPLP foi realizada no campo de al-Baddawi [no norte do Líbano]. Escrevi um artigo sobre isso para o Instituto de Estudos Palestinos, “Kanafanismo e a FPLP”. Ghassan esteve envolvido na ampla e extensa discussão sobre os conceitos do partido e da Frente. Toda crise precipita uma série de argumentos, cada um buscando se exonerar da crise à custa do outro. Ghassan não aceitou esse ambiente, que foi moldado por um cisma na FPLP, liderado por aqueles que se consideravam a frente revolucionária – mais revolucionários do que George Habash, Ghassan Kanafani e Wadi’ Haddad.

Nesse contexto, Ghassan inicialmente não queria se envolver na conferência e preferia permanecer em Beirute. Ele sentia que as organizações eram “o cemitério da criatividade”, mas quem o convenceu a ir? Wadi’ Haddad! A caminho de al-Baddawi, Ghassan perguntou por que Wadi’ não havia comparecido, mas, ao chegar à conferência, para sua surpresa, descobriu que Wadi’ já estava lá à sua espera. Quem respondeu à grande tempestade que abalava toda a FPLP? Ghassan Kanafani! A corrente liderada por George Habash tinha Ghassan ao seu lado e al-Hakim [Habash] propôs um acordo para que Ghassan redigisse o documento resultante. Assim, a partir do debate nessa conferência, Ghassan escreveu As Tarefas da Nova Etapa, lançado como livro pela FPLP. Refletia sobre o que havia acontecido na Jordânia e tinha como base o panfleto de Ghassan de 1970, “A Resistência e seus Desafios”.

Ghassan escreveu “As Tarefas do Novo Palco” em colaboração com outros membros da Frente?

Não, Ghassan escreveu o documento pessoalmente antes de submetê-lo ao Comitê Central. Ele foi então aprovado e divulgado como o documento da conferência. É importante notar que Ghassan não era membro do Bureau Político – e só foi nomeado após seu martírio – mas sim membro do Comitê Central de Mídia. O fato de seus escritos terem sido divulgados pelo Comitê Central indica, de forma importante, que ele atuava como membro não oficial desse órgão de liderança e que o trabalho de Ghassan ocupava a posição mais importante na política da Frente. Um intelectual com tal pensamento, experiência e caráter poderia influenciar a opinião de outros. Para mim, isso é mais perigoso para Israel do que qualquer arma nuclear.

Um dos pontos mais importantes levantados por Ghassan foi que ainda não estamos testemunhando uma fase revolucionária. Não se enganem: estamos em uma fase de preparação para a revolução. Portanto, para Ghassan, ainda não presenciamos a revolução. Outro ponto importante que ele levantou foi a ênfase na política “pesada” , em oposição à política “leve” . Embora existissem organizações, também deveria haver uma voz única para o povo palestino, representada pela luta para formar uma bandeira única. Quem representava essa bandeira? Bem, pode-se dizer que todos aqueles que foram alvejados [e mortos] por Israel durante esse período representavam essa bandeira: primeiro Ghassan, depois Kamal Nasser, Kamal Adwan, Muhammad Youssef al-Najjar, Majed Abu Sharar… Todos estiveram em Beirute e todos representavam essa ideia de uma bandeira única. Eles alvejaram uma organização após a outra, e em particular, editores de jornais.

Em 1969, Ghassan deveria começar a editar o Falastin al-Thawra, mas Wadi’ Haddad lhe disse: “Precisamos lançar um jornal chamado al-Hadaf … com você como editor”. Ele trabalhava no al-Anwar e deixou esse cargo, pelo qual recebia um alto salário, para começar a trabalhar no al-Hadaf . Quando foi assassinado, Kamal Nasser – o editor do Falastin al-Thawra – colocou a foto de Ghassan na capa. Isso foi um papel político. Seu martírio fez parte de uma campanha direcionada para apagar aqueles comprometidos com a literatura e a cultura política – buscavam expurgar o movimento palestino de seu conteúdo revolucionário, em vez de permitir que sua influência se espalhasse para outros. Sempre começamos com “camarada Ghassan…”, “mártir Ghassan…” – e há muitas referências a ele que sugerem que morreu de causas naturais – mas ele foi explodido. Essa é a bestialidade de Israel e suas ações.

Talal Salman costumava dizer em suas palestras sobre Ghassan Kanafani – e ele o conhecia bem – em linguagem muito simples, que quando qualquer visitante estrangeiro chegava a Beirute, a primeira pessoa que ele o levava para conhecer era Ghassan Kanafani. Porque ele era quem melhor conseguia comunicar o significado da causa palestina. Talal se lembrava de que, ao deixarem o Líbano, as pessoas relatavam ter conhecido 20 figuras palestinas, mas que Ghassan era o único que havia sido útil. Ele também se lembrava de ver Ghassan trabalhando, desde o início da manhã até tarde da noite, respondendo a mensagens, atendendo ao telefone ou conversando no meio dos escritórios da Al-Hadaf com pessoas de outros partidos. E “este artigo precisa ir para tal lugar, passe para tal pessoa…”. Ele trabalhava como se tivesse uma doença terminal que o impelia a terminar. Talal ria ao dizer que, enquanto todos os embaixadores árabes dormiam, Ghassan era o único que continuava trabalhando. Há muitos que tentam esconder esse legado político, mas essa foi a sua contribuição para a luta e para a revolução.

A pergunta “por quê?” é tema de muitos artigos, inclusive o meu. Por que Ghassan? Em seus romances, Ghassan começava com a pergunta “por quê?”. E depois, “quando?”, “como?” e assim por diante. Cada história está ligada a uma pergunta. Homens ao Sol: “Por que você não bateu nas laterais do tanque?”. O Que Te Resta: “Quando?”. O Chapéu e o Profeta: “Como?” – neste [romance] há um lutador e há uma ideologia. As novelas de Ghassan nunca envelhecem, mesmo as incompletas. A pergunta “por quê?” foi a primeira pergunta que Ghassan fez em junho [de 1967]. Por que aconteceu a Naksa {refere-se a expulsão de 300 mil palestinos em 1967}. Ele se fixou nessa pergunta, e ela foi tema de muitos comentários. Você conhece a expressão egípcia “la-Maza” (algo como “não responda”) – eles a usavam com Ghassan porque o consideravam insolente.

A mais importante de suas obras políticas – e nós a lemos quando jovens na Frente – foi A Revolução de 1936-1939: Contexto, Detalhes e Análise . Esta foi a primeira vez que a história palestina foi escrita debaixo a cima, considerando o campesinato e todas as outras classes envolvidas, seus pontos de vista, os pontos de vista dos intelectuais e assim por diante. Durante toda a nossa vida, aprendemos histórias sobre Hajj Amin Husseini, o Rei Abdullah… – das classes dominantes. Até mesmo acadêmicos israelenses reconhecem que, se a revolução de 1936 não tivesse sido derrotada, não haveria Israel. Se quisermos entender isso, precisamos compreender todas as condições que deram origem a essa realidade, a partir do próprio contexto do confronto – isso é o verdadeiro marxismo. Outros vieram e lutaram entre si depois de adotarem a perspectiva da Bulgária, da União Soviética, de Mao… Mas a realidade está aqui, na compreensão dos lados do confronto, suas lealdades e classes. E não apenas a classe, mas sua consciência, cultura do conhecimento e muitos outros fatores. O que havia de especial em Ghassan era sua capacidade de desvendar o verdadeiro significado dos acontecimentos.

O método de Ghassan não era meramente literário. Se a literatura de Ghassan obteve sucesso, foi devido ao peso do conteúdo libertador que carregava. Em resposta à pergunta “Por que você não bateu nas laterais do tanque?” [em Homens ao Sol], Ghassan disse em uma entrevista à revista Mawaqif [em junho de 1970]: “Eu clamei em voz extremamente alta por resistência e violência”. Isso representou uma recusa à pacificação. Ghassan confirmou na entrevista que Homens ao Sol tinha uma relação com a resistência palestina. O caminho para a Palestina não passava pelo deserto, mas podia ser encontrado em outro lugar, conduzindo apenas à luta. Essa era a sua compreensão do romance: a solução não residia na personalidade individual, mas no coletivo. Essa é a essência do tema.

Poderia esclarecer o papel desempenhado por Ghassan na Estratégia da FPLP para a Libertação da Palestina em 1969 {refere-se ao documento: Estratégia Política e Organizacional da FPLP}?

Na Estratégia Política e Organizacional, Ghassan deu a principal contribuição. Outros incluindo os líderes da FPLP como George Habash, possivelmente Hani al-Hindi, Abdelwahab al-Kayali e Alhaytham al-Ayoubi. Nas reuniões sobre estratégia, esse grupo trabalhou em conjunto com Ghassan no documento. Lembro-me de que, depois de Oslo, George Habash costumava me dizer que precisávamos de uma nova Estratégia e, preocupados com a possibilidade de não a alcançarmos, perguntávamos em tom de brincadeira: “Como vamos encontrar os autores da primeira Estratégia [de 1969]?”. Isso foi um reconhecimento do papel de Ghassan.

Havia semelhanças com “A Resistência e seus Desafios” , escrito após a saída da Jordânia. Ghassan escreveu que estávamos lutando em território exposto, como uma força abertamente conhecida, e que isso levou à tendência da luta se tornar uma guerra de guerrilha. O papel do nacionalismo jordaniano também havia sido exposto, e essa discussão continuou no Líbano. Havia também discussão e incerteza entre as principais mentes do Fatah, incluindo Kamal Adwan e Yousef al-Najjar, sobre o que era preferível: uma Fatahlândia [abertamente conhecida] ou um Fatah [guerrilheiro] fantasmagórico. Havia duas tendências no Fatah sobre essa questão. Por quê? Porque a experiência da Fatahlândia era a mesma da Jordânia, um foco em áreas [geográficas] específicas, sob a vigilância dos tanques.

A questão da guerra de guerrilha era proeminente – e não tinha o foco que vimos em Hanói ou anteriormente na China, por exemplo – especialmente considerando que Israel e os EUA estavam confrontando [o movimento]. Infelizmente, porém, a experiência foi de construção de exército na revolução palestina, e o potencial para a guerra de guerrilha não foi intensificado. Vimos alguns dos resultados do que Ghassan escreveu em “A Resistência e seus Desafios” nas guerras israelenses no Líbano, inclusive contra o Hezbollah, que se organizou [para derrotar Israel] com essa força guerrilheira fantasmagórica. Mesmo hoje, não se sabe onde estão baseadas as capacidades militares do Hezbollah: procure por todo o Sul e você não encontrará nada, mas quando a guerra chegar, você verá seu poder. Aprendemos muito com essa experiência. No período anterior, todos sabiam onde Abu Ammar e George Habash estavam. Você podia pegar um táxi e dizer: “me deixe no escritório do partido”. “Qual deles, Abu Ayyad [Fatah] ou a Frente Popular para a Libertação da Palestina?” Você acreditaria que isso foi uma revolução? Ghassan escreveu sobre isso durante o período em que esteve na Jordânia. Toda a sua perspicácia foi fruto de estudo e conhecimento.

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