Entrevista com Ghassan Kanafani
Tradução de Yasser Jamil Fayad
Os partidos marxistas veem a evolução futura da luta palestina de forma bastante diferente do Fatah. Ghassan Kanafani, romancista e editor fundador do semanário da FPLP, al-Hadaf, expõe a visão da Frente Popular cinco meses após o Setembro Negro. Nesta entrevista à New Left Review (NLR), conduzida pelo entrevistador Fred Halliday, publicada em maio-junho de 1971, Kanafani responde às críticas aos sequestros, destaca os dilemas enfrentados pela resistência no verão de 1970, e analisa o estágio atual da revolução palestina.
NLR: A Frente Popular é mais conhecida no mundo não árabe pelos sequestros de aviões, em setembro de 1970. Muitas críticas foram feitas aos sequestros. Algumas delas são críticas burguesas. Mas há outras duas que eu gostaria de apresentar aqui. A primeira crítica foi feita tanto por pessoas da resistência palestina, como o porta-voz do Comitê Central, Kamel Radouan {refere-se a Kamal Abdel Hafiz Adwan membro do Fatah e da OLP}, quanto por pessoas de fora: é que os sequestros deram a Hussein uma desculpa para atacar a resistência em um momento em que ele não o teria feito de outra forma. A segunda crítica é feita principalmente por pessoas de fora do movimento de resistência. É que os sequestros deram uma sensação ilusória de poder e confiança às massas palestinas, muito superior à sua real força organizacional e militar. Os sequestros foram, portanto, um substituto para a organização das massas e um evento teatral que incentivou a fantasia. Isso não significa negar que os sequestros tiveram o efeito positivo de lhe dar uma audiência mundial na televisão, à qual você pôde explicar o propósito da resistência palestina. Esse ponto não está em questão. Mas você agora defende os sequestros?
Kanafani: Em primeiro lugar, aprecio o fato de você rejeitar o moralismo burguês e a obediência ao direito internacional. Esses foram a causa da nossa tragédia. Agora, gostaria de responder às suas perguntas. Quero falar em geral sobre este tipo de operação. Sempre disse que não sequestramos aviões porque amamos Boeings 707. Fazemos isso por motivos específicos, em um momento específico e contra um inimigo específico. Seria ridículo sequestrar aviões no momento atual e pousá-los no Cairo, por exemplo, ou na Jordânia. Não faria nenhum sentido agora. Mas você precisa analisar a situação política em que realizamos essas operações e os objetivos que queríamos alcançar. Vamos relembrar a situação. Em 23 de julho, Nasser aceitou o Plano Rogers e, uma semana depois, o governo jordaniano também o fez. Mais uma vez, os palestinos foram deixados de lado. Se você ler a imprensa árabe e internacional entre 23 de julho e 6 de setembro de 1970, verá que o povo palestino estava sendo tratado exatamente como entre 1948 e 1967. Os jornais árabes começaram a escrever sobre como os palestinos eram “heroicos”, mas também sobre como estavam “paralisados” e como não havia esperança para esses “bravos heróis”. O moral do nosso povo na Jordânia, na Cisjordânia e em Gaza estava extremamente baixo. Além disso, uma delegação da liderança do movimento de resistência palestino, o Comitê Central da OLP, foi ao Cairo para negociar com Nasser e seu governo; eles passaram dias e dias discutindo se nos permitiriam reiniciar as transmissões do Egito, após o fechamento de nossa rádio em meados de agosto. A delegação então reclamou com a Liga Árabe e tentou fazê-los discutir a questão. Antes de 23 de julho, a resistência palestina era retratada na imprensa árabe como a grande esperança do povo palestino; ao mesmo tempo, todos os árabes consideram a Liga Árabe como a forma mais baixa de política, o órgão político mais paralisado do mundo árabe. Agora, tínhamos a forma mais elevada de política se aproximando do “abrigo imundo” da Liga Árabe. Isso demonstrava que a revolução estava ameaçada de liquidação, independentemente de Hussein a esmagar fisicamente ou não. Todos — inclusive aqueles que criticavam a operação da FPLP — estavam convencidos de que a destruição da resistência era parte essencial do plano de Rogers.
NLR: Você concorda que Nasser e o regime egípcio apoiaram isso?
Kanafani: O regime egípcio estava um passo distante da participação direta nessa liquidação, já que não tinha contato direto com os palestinos; estava em uma posição mais segura. A única maneira de o regime egípcio ajudar Hussein era mantendo-se em silêncio: e foi o que fez, na medida em que pôde resistir à pressão das massas árabes. Durante os três primeiros dias dos combates em setembro, o governo egípcio, e todos os outros governos árabes, permaneceram em silêncio, porque achavam que o movimento de resistência não sobreviveria por mais de três dias. Então, foram forçados a agir, porque as pessoas nas ruas do Egito, da Síria e do Líbano estavam revoltadas com o massacre; mas as primeiras cinco mil vítimas palestinas caíram em Amã em silêncio, e ninguém reclamou. O Plano Rogers pressupunha a liquidação do nosso movimento e isso se aproximava em uma atmosfera de submissão palestina. Portanto, algo precisava ser feito: em primeiro lugar, dizer ao mundo que não seríamos colocados de lado pela segunda vez, e em segundo lugar, dizer ao mundo que os dias em que os EUA e os árabes reacionários podiam ditar as regras para o nosso povo haviam acabado. Além disso, havia a questão do moral, da capacidade de luta, do nosso próprio povo. Não podíamos deixar as coisas como estavam quando um massacre estava a caminho, mesmo que tivéssemos nos sentado em silêncio nos degraus do palácio de Sua Majestade e beijado sua mão.
NLR: Então você não aceita a ideia de que o próprio Hussein estava inseguro sobre o que fazer, mas que o exército o forçou a se mover.
Kanafani: Absolutamente não. Isso é um completo absurdo. É verdade que ainda existem partes do movimento de resistência que acreditam ser possível “neutralizar” o regime jordaniano; mas isso é um disparate. Quanto ao argumento de que os sequestros provocaram e aceleraram o ataque de Hussein, a resposta curta é que o regime jordaniano já havia interrompido as ações da guerrilha ao sul do Mar Morto, bloqueado as forças que se deslocavam em direção a Eliat e impedido que nossas unidades atacassem a represa de Naharin, no norte da Cisjordânia. Ao mesmo tempo, o exército jordaniano colocou minas na maioria dos pontos aonde os guerrilheiros cruzavam o rio Jordão e os forçou a passar por certos corredores específicos; esses corredores eram emboscados. Eles estavam nos enviando para sermos mortos de qualquer maneira. Tudo isso estava acontecendo antes do massacre de setembro; foi um massacre sob outra forma. Assim, o verdadeiro conflito acontecia o tempo todo: eles nos proibiam de praticar nossa razão de ser. Eles nos impediam de realizar ataques contra Israel e reprimiam nossas atividades políticas nas cidades. Portanto, nossas próprias ações, incluindo os aviões, não foram provocações; foram o movimento de uma revolução tentando escapar de um círculo no qual estava presa.
NLR: Como sua ação pretendia fazer isso?
Kanafani: Todas as nossas atividades foram uma tentativa de sair da nossa situação. Por exemplo, realizamos manifestações em Amã gritando “Abaixo Nasser” e “Abaixo o Egito”; talvez tenham sido um erro, mas foram uma das muitas maneiras pelas quais tentamos romper o ciclo.
NLR: Era óbvio que Hussein atacaria a resistência assim que aceitasse o plano de Rogers. Vocês então tinham uma escolha: ou esperavam que ele os atacasse, ou o atacavam primeiro. No entanto, em ambos os casos, parece que vocês nunca tiveram a intenção de derrubar Hussein e nunca imaginaram que poderiam fazê-lo. Seu objetivo não era essencialmente preservar a posição organizacional da resistência, e não era essa a ideia por trás dos sequestros?
Kanafani: Não se deve isolar os sequestros do contexto político total. Por exemplo, o Fatah enviou lançadores de foguetes para Ghor-Safi, abaixo do Mar Morto, e explodiu as fábricas de potássio. Estávamos todos tentando romper o cerco, dar mais esperança às massas palestinas e dizer que a batalha continuava. Queríamos pressionar o governo jordaniano para que adiasse seu ataque contra nós. Nossa relação com o governo jordaniano não se baseia em convicções comuns, apenas em pressão; não temos nenhum ponto em comum com eles. Era uma questão de equilíbrio de poder. Todas as nossas ações, desde o grande erro de ir à Liga Árabe, até os sequestros em si (que foram a forma mais extrema de pressão), foram formas de pressão. Algumas delas foram mal calculadas negativamente, e outras positivamente. Por outro lado, certamente havia indivíduos e organizações dentro da resistência que acreditavam que havia uma possibilidade de derrubar o rei. Eles estavam enganados.
NLR: Nem mesmo naquela época vocês acreditavam que poderiam derrubar o rei, esperando que ele os atacasse? Acreditava-se que o povo se uniria com a adoção inicial de uma posição defensiva.
Kanafani: Esse era o nosso dilema, e estávamos em crise. A resistência e todos os governos militares árabes estavam em crise, o que foi o preço do Plano Rogers. Se tivéssemos decidido lutar contra Hussein, deveríamos ter escolhido a hora e o lugar. Mas, como Hussein nos atacou, não tivemos escolha; tivemos que lutar na hora e no lugar que ele escolheu. Assim, os sequestros fizeram parte de um mosaico extremamente perigoso que compôs o mapa árabe e palestino de julho de 1970 até agora. Havia muitos outros fatores também. Estávamos encurralados e tínhamos duas maneiras possíveis de sair. Ou poderíamos nos defender até a vitória, contra Hussein, ou poderíamos “perder a batalha vencendo-a” se atacássemos Hussein. Mas o resultado não foi decidido apenas por nós, também foi decidido pelo outro lado; eles tinham mais planos do que nós. Você deve se lembrar que Hussein teve que provar aos americanos que eles não precisavam criar um estado palestino. Os americanos estavam pensando se deveriam trazer um oficial do tipo Suharto para substituir o Rei Hussein com um golpe em Amã, o que instauraria um estado palestino lá. Os israelenses também estavam discutindo isso. Hussein queria recuperar seu prestígio, e conseguiu; Nixon agora mudou de ideia, e os americanos acreditam novamente que Hussein é capaz de lidar com a situação. Quanto aos sequestros, sua importância psicológica era muito maior do que sua importância militar, nesta fase da revolução. Ora, se estivéssemos na fase final da revolução, ou mesmo nos estágios iniciais avançados da revolução e tivéssemos sequestrado aviões, eu teria sido o primeiro a denunciá-lo. Mas na fase preparatória da revolução, as operações militares têm sua importância psicológica.
NLR: Portanto, você ainda acha que estava certo em realizar os sequestros?
Kanafani: Acho que, de modo geral, essas operações foram corretas. Talvez tenhamos cometido alguns erros táticos. Talvez devêssemos ter feito com que toda a resistência palestina compartilhasse muito mais a responsabilidade por eles e, então, se eles tivessem decidido duas horas depois libertar os aviões, talvez nós devêssemos tê-los libertado. Talvez não devêssemos ter sido tão teimosos. Mas você não pode imaginar o que tudo isso significou para as pessoas naquela época. Você levantou a questão de se os sequestros criaram uma atmosfera entre as massas palestinas que o movimento de resistência foi incapaz de absorver e organizar. Isso pode ter acontecido. Mas mesmo que seja verdade, lutamos por doze dias em setembro e obrigamos o exército jordaniano a travar a guerra mais longa de sua história por causa do que fizemos.
NLR: Em setembro, muitos comentaristas acreditavam que a resistência palestina só poderia vencer se o exército jordaniano se dividisse e uma parte dele se juntasse à resistência, ou se um regime árabe externo — Síria ou Iraque — interviesse e ajudasse. O senhor esperava que alguma dessas eventualidades ocorresse?
Kannafani: Não acho que nenhuma delas teria dado à resistência uma vitória. Em uma guerra de guerrilha, as condições são diferentes, e o importante é o objetivo de uma ação específica. O objetivo do regime jordaniano era acabar completamente com a resistência. Mas o objetivo da resistência palestina não era derrubar o regime jordaniano, mas apenas pressioná-lo. Nenhum desses dois objetivos foi alcançado, então ninguém realmente venceu. É claro que, até certo ponto, tivemos que ceder em certos pontos e entrar na clandestinidade. Mas a batalha ainda continua; a retirada para a atividade clandestina ou para as montanhas é apenas um aspecto tático para regular o equilíbrio de poder.
NLR: O senhor não nega que tanto a possibilidade de operações contra Israel a partir da Jordânia quanto a margem de manobra político-militar da resistência dentro da Jordânia tenham sido drasticamente reduzidas pelos eventos de setembro? A monarquia hashemita não continua tentando desarmar a guerrilha em Amã e obter o controle direto de seus campos de refugiados e outras posições estratégicas?
Kannafani: Eu sei. Não nego que o regime jordaniano tenha conquistado algum terreno e nos forçado a recuar. Mas gostaria de destacar dois pontos para contextualizar os eventos de setembro. O regime jordaniano quase conseguiu nos impedir de realizar qualquer ataque contra Israel antes de setembro; isso não foi resultado de setembro, mas um dos fatores que levaram a setembro. Precisávamos dizer ao nosso povo que estávamos fazendo algo; não podíamos ficar sentados em Amã sem fazer nada. Agora estamos nas montanhas, em um estágio preparatório, e a revolução assumiu uma forma mais realista do que quando as pessoas pensavam que ela estava em um estágio muito avançado. Sou contra dizer que estamos derrotados, porque no passado, nossa força real foi exagerada e agora temos um tamanho proporcional à nossa força. Nunca tivemos margem de manobra diante do nosso próprio povo e da opinião pública mundial, e alguns líderes não tiveram essa margem nem mesmo diante de seus próprios militantes. Levará muito tempo para restaurar o equilíbrio de poder anterior com o governo jordaniano e continuaremos a recuar até que tenhamos uma compreensão correta da nossa própria força. Há muitos exemplos na história de pessoas com rifles vivendo nas montanhas, emboscando um caminhão e atirando em um ou outro soldado, e não conseguindo mais nada. Este é o nosso problema, e há um debate em andamento dentro da resistência sobre isso; de fato, a FPLP está sendo acusada de não querer entregar as armas da guerrilha. Na verdade, não acredito que um combatente do Fatah entregaria suas armas.
NLR: Em que medida a Frente Popular mudou sua estratégia desde setembro? Em janeiro, foi noticiado que George Habash teria dito que havia chegado a hora de derrubar a monarquia hashemita. Isso é verdade?
Kannafani: A Frente Popular sempre insistiu que temos quatro inimigos iguais: Israel, o sionismo mundial, o imperialismo mundial liderado pelos Estados Unidos e a reação árabe. A derrubada desses regimes árabes reacionários faz parte da nossa estratégia, parte da libertação da Palestina. A derrubada do regime jordaniano deve fazer parte do programa de uma Frente de Libertação Nacional Palestina. Temos que fazer isso, mas não necessariamente amanhã. Sempre insistimos na necessidade de fazer isso, mas deve fazer parte de uma linha estratégica geral.
NLR: Já se passaram cinco meses desde os eventos de setembro. Na sua opinião, quais foram os efeitos sobre o povo palestino?
Kanafani: É normal que alguns partam durante períodos de intensos combates. Períodos avançados de luta são atraentes para as pessoas, que se juntam porque não há preço a pagar para participar da revolução. Elas ficam em casa, continuam indo aos seus empregos; se alguém está estudando na Universidade de Damasco, por exemplo, pode tirar um ano de folga e trabalhar com a resistência. Por outro lado, choques como o de setembro cristalizam a força da revolução, porque a forçaram a se refugiar nas montanhas. Agora há comandos vivendo nas florestas de Ajloun, no norte da Jordânia; eles vivem em cavernas, com água e comida limitadas e pouca munição. Nesta situação, não podemos esperar que os milhares que andavam por Amã de cáqui carregando seus Klashnikovs vivam este tipo de vida. Nas cidades, a organização e o recrutamento são diferentes. Antes tínhamos um escritório conhecido e podíamos recrutar e treinar pessoas abertamente nos campos. Agora temos uma relação diferente com as massas: não usamos fardas cáqui e não andamos pelas ruas, nem fazemos discursos nos campos. Temos que operar de uma maneira diferente, e é exatamente aí que um partido se faz necessário. Embora seja difícil nas montanhas, a situação é ainda mais difícil nas cidades. Muitas pessoas tinham um senso burguês de pressa, mas agora estamos em uma fase de recuo. Militar e politicamente, isso não é um erro e não é perigoso. Mas isso gera problemas psicológicos, devido à necessidade de manter o povo conosco. Alguns elementos na Cisjordânia agora defendem um Estado palestino. Sabíamos que eles estavam discutindo esse plano em particular entre si por três anos após a guerra de junho e que estavam em contato com os israelenses, com os reacionários árabes e com os imperialistas. Foi somente depois que o movimento de resistência foi forçado para trás que eles ousaram levantar este projeto abertamente. Ao mesmo tempo, os eventos de setembro fizeram com que as massas na Cisjordânia percebessem o que significaria ter Hussein de volta, e a reação resultante de um povo sob ocupação e sem uma organização adequada é dizer: “Qualquer coisa, menos Hussein de novo”. Para a Cisjordânia, um estado palestino seria melhor do que ter o regime do Rei Hussein de volta. Esta é uma reação muito temporária, resultante de um choque psicológico. Gaza é uma história completamente diferente. A resistência estava na defensiva na Cisjordânia e na Jordânia, mas escalou repentinamente em Gaza de uma forma notável. A Frente Popular tem a influência mais forte em Gaza, então agimos. Permita-me mencionar um caso específico, o de Youssef el-Khatib Abu Dhumman. Ele era o chefe da operação militar da Frente Popular em Gaza e foi morto no início de dezembro. Durante seis dias houve greves contínuas e manifestações em massa em Gaza; portanto, todos sabiam que os homens ainda estavam lutando. Isso elevou o nível de ação em Gaza, embora tenha aumentado nossas baixas como nunca antes.
NLR – O que gerou maior militância em Gaza?
Kanafani: A população de Gaza é de 360.000 habitantes; a maioria são refugiados palestinos. Em Gaza, as pessoas estão familiarizadas com armas. Elas foram treinadas pelo Exército Popular de Libertação sob a administração egípcia, ao contrário da Cisjordânia. Outro fator é que o Movimento Nacionalista Árabe foi reprimido em Gaza pelos egípcios, mas nunca na mesma medida que na Cisjordânia. Quando Gaza foi ocupada, o MNA tinha suas células lá; enquanto Hussein entregou a Cisjordânia aos israelenses em um estado “limpo”, como ele mesmo disse – não havia uma única célula do MNA lá. Então, tínhamos a base mínima para começar em Gaza. Há também um fator psicológico: Gaza é cercada a oeste pelo mar, ao sul pelo Sinai, a leste pelo deserto de Naqab e ao norte pelo Estado de Israel. Os palestinos lá estão psicologicamente sitiados e acostumados às dificuldades. Na Cisjordânia, os contatos foram muito mais fáceis nos primeiros meses de ocupação; era mais simples enviar dinheiro, homens e armas para a região. As pessoas na Cisjordânia acostumaram-se a métodos mais fáceis e não conseguiram resistir às contramedidas israelenses. Em Gaza, eles eram mais duros e mais profissionais. Outro fator foi que o regime jordaniano em Amã continuou pagando os salários de professores, detetives, funcionários públicos e outros; esta é a única maneira de um regime reacionário manter a lealdade dessas pessoas. Os israelenses também pagavam salários a essas pessoas. Não é verdade que a maioria delas fosse contra a resistência, mas certamente não estavam com pressa; na Faixa de Gaza, as pessoas estavam sob maior pressão. Gostaria agora de fazer alguns comentários mais gerais. Em toda revolução há uma onda inicial de entusiasmo que se dissipa depois de um tempo, porque não está profundamente enraizada. Acho que nossa primeira onda atingiu seu pico em Karameh, em março de 1968; Depois disso, começamos a declinar, porque estávamos retornando às nossas proporções reais. Em tais períodos de recaída, sempre há divisões, exageros, romantizações, tendências ao individualismo e à transformação da revolução em um mito, e assim por diante. Essas são as doenças do mundo subdesenvolvido, e elas se expressam em um período em que não se está engajado em um trabalho revolucionário real, mas, mesmo assim, é considerado como alguém que está fazendo uma revolução. Se a revolução não se desenvolver a partir disso, se não fizer algo como a Longa Marcha de Mao, ou adquirir mais força de fora por meio da libertação de um estado árabe, então as derrotas terão um efeito perigoso sobre o moral das massas. O período de declínio não começou em setembro, começou depois de Karameh.
NLR: Podemos agora abordar a questão de Israel? Você acha que existe algo como uma nação israelense? O grupo Matzpen e outros dentro de Israel argumentaram que pode não ter existido originalmente uma nação judaica, mas os imigrantes judeus que vieram para a Palestina estabeleceram lá uma nova comunidade que pode ser chamada de nação israelense.
Kanafani: Essa é a solução de Maxime Rodinson. É um fantástico compromisso intelectual; significa que qualquer grupo de colonialistas que ocupe uma área e permaneça lá por um tempo pode justificar sua existência dizendo que está se desenvolvendo em uma nação.
NLR: Então você não acha que os israelenses sejam uma nação?
Kanafani: Não, não acho. É uma situação colonialista. O que temos é um grupo de pessoas, trazidas por vários motivos, justificados e injustificados, para uma determinada região do mundo. Juntos, todos participam de uma situação colonialista, enquanto entre eles também existem relações de exploração. Concordo que os trabalhadores israelenses são explorados. Mas esta não é a primeira vez que isso acontece. Os árabes na Espanha estavam na mesma situação. Havia classes entre os árabes na Espanha, mas a principal contradição era entre os árabes na Espanha como um todo e o povo espanhol.
NLR: Então, você vê contradições dentro da população israelense que podem dividi-la no futuro e fornecer à resistência palestina aliados dentro da sociedade israelense?
Kanafani: Claro. Mas isso não acontecerá facilmente. Antes de tudo, precisamos levar a revolução ao estágio em que ela represente uma alternativa para eles, porque até agora não tem sido assim. É um absurdo começar a falar de uma “Palestina Democrática” neste estágio; teoricamente, isso estabelece uma boa base para debates futuros, mas esse debate só pode ocorrer quando a resistência palestina for uma alternativa realista.
NLR: Quer dizer que deve ser capaz de fornecer uma alternativa prática para o proletariado israelense?
Kanafani: Sim. Mas, no momento, é muito difícil fazer com que a classe trabalhadora israelense ouça a voz da resistência palestina, e existem vários obstáculos para isso. Entre eles, estão a classe dominante israelense e as classes dominantes árabes. As classes dominantes árabes não oferecem nem aos israelenses nem aos árabes uma perspectiva de democracia. Pode-se perguntar: onde existe democracia no mundo árabe? A classe dominante israelense também é, obviamente, um obstáculo. Mas há um terceiro obstáculo, que é o benefício real, ainda que pequeno, que o proletariado israelense obtém de seu status colonialista dentro de Israel. Pois a situação dos trabalhadores israelenses não é apenas colonialista, mas eles se beneficiam do fato de Israel como um todo ter sido recrutado para desempenhar um papel específico em aliança com o imperialismo. São necessários dois tipos de movimento para romper essas barreiras, para que haja um futuro contato entre um proletariado israelense antissionista e o movimento de resistência árabe. Esses movimentos serão o movimento de resistência, por um lado, e um movimento de oposição dentro do próprio Estado de Israel; mas ainda não há nenhum sinal real de tal convergência, já que, embora Matzpen exista, o que seria necessário é um movimento proletário de massas.
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