A Nakba… o palestino não será arrancado de sua narrativa

A Nakba… o palestino não será arrancado de sua narrativa

Marwan Abdel AalQuinta-feira, 14 de maio de 2026.

Não é possível compreender a Nakba apenas como um fato histórico, mas como um processo contínuo de expulsão material e negação simbólica. A Nakba não foi somente a expulsão de cerca de 750 mil palestinos de suas terras e a destruição de mais de 531 aldeias e cidades; foi também a fundação de todo um sistema de apagamento: apagar o ser humano de sua terra, apagar a terra de seu nome e apagar o nome da memória. O objetivo não era apenas ocupar o lugar, mas redefini-lo e recriá-lo como um espaço sem donos, sem história ou sem uma memória digna de reconhecimento, por meio de uma narrativa colonial alternativa.


É essa a Nakba, com suas transformações e consequências: um crime que se agrava à medida que deixa de ser um ato passageiro para tornar-se um sistema permanente, e de uma prática excepcional para converter-se em estrutura fundadora do Estado sionista. Um Estado que não se limita a usurpar a terra, mas continua sua guerra contra a narrativa e contra o corpo ao mesmo tempo; retém os corpos dos mortos assim como ocupou os lugares, rouba os mortos assim como roubou a vida dos prisioneiros, os nomes dos mártires, das aldeias e sua história. Assim, a deformação moral transforma-se em uma instituição completa, e a “forca” converte-se hoje em símbolo festivo de um Estado ultrafascista, de modo que falar de leis de execução não é um detalhe circunstancial, mas expressão de uma lógica que vê o palestino como um excesso de existência que deve ser apagado.
Passaram-se 78 anos desde a expulsão da Palestina e o deslocamento de seu povo, enquanto a Nakba continua sob formas ainda mais violentas e brutais, tornando-se um projeto permanente para eliminar o ser humano palestino, apagar sua narrativa e destruir sua vontade nacional e existencial. “Quem ainda se lembra do que fizemos em 1948?”, pergunta Gideon Levy. A questão não parece ser apenas um questionamento moral passageiro, sobretudo quando é levantada às vésperas do aniversário da Nakba. No fundo, a pergunta não se refere apenas ao passado, mas também ao presente: à vida do palestino e ao valor de sua morte, não por meio da lembrança, mas como realidade cotidiana vivida, e não como um episódio encerrado nos livros de história.


O que acontece desde 1948? E como a Nakba se transformou de um acontecimento histórico em uma realidade permanente, de uma tragédia humana em uma guerra aberta contra a narrativa, a memória, o sonho e o direito?


Depois de 78 anos, a Nakba já não se resume ao primeiro momento do deslocamento, mas tornou-se um sistema contínuo de expulsão que atinge o palestino vivo antes do palestino morto; o ser humano em sua memória, identidade e relação consigo mesmo, e a coletividade em sua consciência coletiva e em seu permanente sentimento de exílio.


Guerra das narrativas
Tudo começa com a Nakba original de 1948 e com as múltiplas nakbas derivadas e fragmentações contínuas que reproduziram a tragédia palestina nos diversos lugares da existência palestina, dentro da Palestina histórica e nos exílios e campos de refugiados. O palestino, onde quer que esteja, vive uma crise de existência e identidade que ultrapassa os limites da geografia e da política, porque a questão palestina deixou de ser apenas uma questão palestina; tornou-se também uma questão ligada à própria natureza da entidade sionista e à legitimidade de sua existência presente e futura.


A Nakba não começou no dia em que a Palestina caiu, mas quando já havia se acumulado deterioração suficiente para tornar possível essa queda. Grandes catástrofes não acontecem de repente; elas amadurecem durante muito tempo na estrutura que as produzirá. O que ocorreu em 1948 não foi uma explosão repentina na história, mas um grande momento de revelação de uma crise árabe anterior à própria Nakba; uma crise não produzida apenas pela guerra, mas exposta e revelada por ela.


Primeiro, a narrativa contrária sustenta que o que aconteceu foi resultado de uma guerra encerrada, e não de uma guerra contínua desde 1948 até hoje. Como se a Nakba fosse um episódio fechado no passado, e não uma estrutura permanente na realidade, na política e na consciência. Mas a verdade é que a Nakba não começou nem terminou em 1948; seus efeitos continuam presentes no deslocamento, na limpeza coletiva, no cerco, na colonização e na reprodução do refúgio.


Segundo, essa narrativa procura responsabilizar o próprio palestino por sua tragédia, alegando que ele deixou sua terra em resposta aos chamados dos regimes árabes derrotados ou em consequência do que Israel chama de “Guerra da Independência”. Dentro dessa lógica, as milícias da “Haganah” são apresentadas como forças de defesa e não como instrumentos de um projeto colonial baseado na limpeza étnica e na expulsão.


O palestino, onde quer que esteja, vive uma crise de existência e identidade que ultrapassa os limites da geografia e da política, porque a questão palestina deixou de ser apenas uma questão palestina; tornou-se também uma questão ligada à natureza da entidade sionista e à legitimidade de sua existência.


A narrativa mais cruel, porém, é a que afirma que o palestino não teve sua pátria roubada, mas a vendeu, e que a Palestina era “uma terra à venda”. Trata-se de uma narrativa usada não apenas para justificar o crime, mas para deformar moralmente a vítima e privá-la de seu direito histórico e humano. Mesmo que tenham existido casos individuais ou transações limitadas, isso jamais poderia justificar a expulsão de um povo inteiro de sua terra, nem transformar o colonialismo de assentamento em uma “compra” legítima.


Nesse contexto, o historiador israelense Ilan Pappé apresentou uma importante obra documental em A Limpeza Étnica da Palestina, na qual revelou a relação direta entre a Nakba, a expulsão e os massacres utilizados para remover os palestinos de sua terra. O livro conclui que o que ocorreu não foi consequência espontânea da guerra, mas uma política planejada nos mais altos níveis políticos e militares.


Também Khirbet Khizeh, do escritor israelense Yizhar Smilansky, é considerada uma das mais importantes obras literárias hebraicas sobre as expulsões e a limpeza que acompanharam a Nakba de 1948. Publicada em 1949, a novela descreve a invasão de uma pequena aldeia palestina por uma unidade militar israelense e a expulsão de seus habitantes sob ameaça de armas, enquanto o narrador experimenta um crescente sentimento de culpa e colapso moral.


Hoje, grandes quantidades de documentos e estudos, palestinos e israelenses, revelam que a liderança sionista sob David Ben-Gurion não tratou o deslocamento apenas como consequência lateral da guerra, mas como parte de uma visão estratégica destinada a criar uma maioria judaica por meio do esvaziamento de vastas áreas de seus habitantes palestinos.


Arrancar o palestino de sua narrativa
As grandes derrotas começam quando os povos perdem sua consciência antes de perder suas fronteiras. Quando se perde a bússola com o objetivo essencial de neutralizar a responsabilidade de Israel pela Nakba, pela expulsão, pelo desenraizamento e pelo genocídio. Por isso, o palestino — especialmente nos campos de refugiados — é redefinido como um “refugiado” desprovido de sua história política, e sua causa é reduzida a uma dimensão humanitária, securitária ou social. Isso acontece porque a abordagem histórica e política da questão palestina entra diretamente em choque com a narrativa oposta, ao revelar que a raiz da tragédia palestina está na própria natureza do projeto sionista, e não apenas nos resultados da guerra.


Quando a consciência é derrotada, a ocupação torna-se capaz de reescrever a vítima em sua própria linguagem e remodelar o espaço palestino. Assim, os Acordos de Oslo não foram apenas um fracasso político, mas um momento decisivo na guerra das narrativas. O palestino foi redefinido de sujeito de um direito histórico para “parte negociadora”, e Oslo demonstrou que a Nakba não está apenas na perda da geografia, mas também na perda de uma consciência árabe incapaz de ver a Palestina como uma causa histórica de libertação, tratando-a como um dossiê passível de fragmentação e adiamento. O mais grave em Oslo não foi apenas a concessão de terras, mas a renúncia à narrativa palestina: a Palestina como causa de liberdade, existência e direito histórico inegociável.


A epopeia de Gaza reabriu a narrativa e a recolocou em um caminho de correção duro e definitivo. Em meio ao genocídio, ao fogo, aos escombros e à fome, o palestino não abandonou sua terra; permaneceu nela não como vítima romântica, mas como testemunha histórica do colapso de toda uma narrativa e da exposição de seus limites morais e políticos. O que Gaza demonstrou não foi apenas heroísmo, mas uma verdade política e moral incontestável: o palestino não vende sua terra — em Gaza, na Cisjordânia, no Naqab, na Galileia e em Jerusalém — nem a abandona; nasce nela, vive nela, luta nela, morre nela e nela é enterrado.


Aqui, a Nakba revela, após 78 anos, seu significado mais desnudo: ela não é apenas o que o colonialismo fez à Palestina, mas também o que os regimes árabes fizeram ao significado da Palestina. A Palestina não perdeu apenas sua terra; o sistema árabe fracassou em transformá-la em uma causa ampla de libertação. Entre um povo que deseja lembrar para continuar existindo e um projeto colonial que deseja negar para se completar, o conflito continua não apenas sobre a terra, mas sobre o próprio significado da verdade.


O crime da negação da Nakba
A negação não é apenas uma divergência de narrativa nem uma disputa sobre a interpretação da história; ela é a outra face do próprio crime. Se a expulsão é a violência da geografia, a negação é a violência da história. E se arrancar o palestino de sua terra foi o primeiro ato da Nakba, arrancá-lo de sua narrativa é o seu ato contínuo.


Há um ano, quando o deputado Ayman Odeh levantou no Knesset a questão da criminalização da negação da Nakba, não se tratava apenas de uma iniciativa legislativa simbólica, mas de um ato político e moral para afirmar a narrativa palestina e rejeitar o apagamento da memória. O fato de se exigir o reconhecimento da Nakba dentro de uma instituição fundada justamente sobre sua negação — e de o discurso ter sido recebido com gritos, indignação e acusações de que a Nakba seria uma “fábula” — revela que o conflito já não é apenas pela terra, mas pelo direito da vítima de contar o que lhe aconteceu.


A Nakba ocorre quando o palestino é arrancado não apenas de sua terra, mas também de sua narrativa. E isso não acontecerá. Enquanto a terra continuar encharcada pelo sangue de seus filhos, ela resistirá e permanecerá maior do que todas as tentativas de ocupar a memória.
E entre o sangue que não seca e a verdade suspensa nos limiares de uma ressurreição ainda incompleta, não esqueceremos o que aconteceu em 15 de maio de 1948. Mas como pode o mundo continuar vivendo sobre essa memória e aceitar a falsa narrativa do colonizador como se nada tivesse acontecido?


Marwan Abdel Aal — escritor palestino

Share